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Bastante tentadora é a ideia de preencher este texto sobre Ricardo Ledoux e seu mais novo trabalho com lembranças das experiências que compõem nossa amizade de mais de duas décadas e cinco anos de banda. No entanto, resistirei a essa abordagem a bem do frescor do título escolhido para seu primeiro trabalho solo. Deixemos os afetos de nossa amizade e foquemos em “Afetos”, EP que Ricardo traz a público depois de anos de depuração de uma abordagem musical bastante peculiar.

Tentarei falar deste trabalho como a expressão e o resultado de três movimentos, três metamorfoses operadas pelo autor, ao longo do tempo, em sua maneira de se expressar musicalmente: uma no canto, outra na relação com o instrumento e, por fim, na temática geral que sustenta as canções.

Quanto ao canto, cumpre dizer que já era notória a capacidade vocal do jovem Ricardo Ledoux do início dos anos dois mil. O volume e alcance de sua voz chamavam a atenção de outros músicos do Comasa, bairro onde ensaiávamos religiosamente aos fins de semana. Naturalmente, essas características vinham marcavam sua produção autoral da época. As linhas vocais que criava eram intensas, agressivas, quase violentas.

Já em “Afetos” se revela um cantor que buscou a naturalidade de sua tessitura vocal e que, ao encontrá-la, não hesitou em explorá-la. O falsete e a suavidade da emissão de notas longas e limpas tomaram o lugar dos drives e de qualquer resquício de agressividade, conferindo conforto aveludado às subidas de tom. Uma transformação e tanto. É quase como se Ricardo parisse outro cantor dento de si a fim de dar conta do que agora deseja interpretar. E também uma aproximação a uma certa tradição do canto popular brasileiro à lá Vitor Ramil e Moska, influências claras em seu trabalho.

Esse movimento rumo a uma emissão vocal mais limpa, suave e natural veio acompanhado por outra mudança: saem as guitarras distorcidas e entra em cena o violão. É ele o responsável pelo chão harmônico e rítmico do EP. Com pontuais e comedidas inserções de percussão, teclas, sopro e efeitos, fica a cargo das bases de violão conferir corpo e coesão às cinco faixas. Tarefa não muito simples, principalmente quando se é formado em ambiente roqueiro, no qual guitarras e bateria costumam protagonizar as mixagens.

Nesse quesito, mais um ponto para Ricardo: os anos de estudo de violão clássico resultaram em arpejos muito precisos, a ponto de as sobreposições de bases de violão soarem quase imperceptíveis de tão sincronizadas, efeito que encorpa e traz uma sensação de espacialidade às músicas.

Sobre o que ouvimos/lemos nas letras, a faixa que dá nome ao EP anuncia já no primeiro verso a temática geral do trabalho. Os afetos são maiores do que o compositor e ele se deixa dominar ditosamente por aqueles mais presentes em sua vida: há canção para a filha (“Jabuticaba”); para a esposa (“Lea”); para os pais (“Perdão”); que celebra as singelas e prazerosas coisas da vida (“Vento”); e sobre a própria consciência de que é a dimensão não racional da existência que molda o artista (“Afetos”).

Temáticas ao mesmo tempo pessoais e universais gerando textos que, se não podem ser considerados simples, sem dúvida atingem maior grau de comunicabilidade se comparados aos do início da sua carreira.

Outros elementos pelos quais Ricardo claramente nutre grande afeto são as melodias de notas alongadas, intervalos curtos entre os graus e composições de estrutura livre, nas quais versos e melodia se condicionam mutuamente sem muito apego a formas pré-estabelecidas. Não se identificam refrões com facilidade e, mesmo depois de várias audições, a surpresa de cada motivo melódico pode se renovar.

Todas essas características tornam “Afetos” um EP que não se decifra nos primeiros contatos. Trata-se de um conjunto de canções que, embora simples, a cada audição revelam sinuosidades melódicas sutis e densas paisagens sonoras. É um trabalho que não se desnuda nos primeiros trinta segundos: teimosamente exige tempo para sua fruição.

TEXTO DE TIAGO LUIS PEREIRA